Comunidades
Virtuais
Um Modelo de Cooperação Docente
António Manuel Andrade
andrade@porto.ucp.pt
TIC e Educação
Escola Dr. Manuel Laranjeira
Espinho, 9 e 10 de Maio de 2002
As Tecnologias como Fermento e Fecundidade da Mudança
Hoje vivemos num tempo marcado e condicionado pela importância
das tecnologias como sejam as ligadas à matéria, energia, vida,
informação e comunicação (TIC). Em particular a
fusão das tecnologias da informação com as da comunicação
embalou-nos no sonho de criação da sociedade da informação.
Sociedade interligada, flexível, participada, móvel, criativa,
onde a informação e o conhecimento são gerados e partilhados
em ambientes cada vez mais mediados por tecnologia.
Os impactos da presença e relevância das TIC verificam-se, no plano
da estrutura dos nossos interesses, que condicionam aquilo em que pensamos.
Simultaneamente, os recursos tecnológicos disponíveis modificam
o carácter tradicional dos símbolos com que interagimos e, como
tal, influenciam aquilo com que pensamos. Por último, alteram a natureza
das comunidades que perspectivam novos espaços onde tendencialmente desenvolveremos
o nosso pensamento e estruturaremos as nossas actividades [Tedesco 1999].
Desta forma vai-se alterando o quadro de referências e de valores tradicionais,
acentuando-se todo o volume de incertezas que percorre todos os planos da vida
que vão sendo progressivamente afectados: económico, político,
familiar, social, educativo e até mesmo o religioso.
O sociólogo Manuel Castells elabora uma abordagem que nos simplifica
o entendimento dos alicerces sobre os quais se desenvolve a mudança de
paradigma a que assistimos [Castells 1999]:
· a informação hoje não existe apenas para agir
sobre a tecnologia, mas é efectivamente cada vez mais a sua matéria
prima. Trata-se de tecnologia para agir sobre informação;
· a penetrabilidade dos seus efeitos é indiscutivelmente profunda
dado que a informação é parte incontornável de toda
a actividade humana;
· por último, a versatilidade e potencialidade da sua estruturação
em rede está provada, pois a sua morfologia tem-se mostrado capaz de
responder à complexidade crescente da interacção humana.
Por estas razões vão-se diluindo as resistências à
mudança na área educativa e a inovação não
se fecha numa sala de aula. As TIC proporcionam acesso fácil a novos
projectos, motivações e respostas. Qualquer lacuna científica,
ou qualquer falta de suporte pedagógico, encontra inspiração
de solução na rede das redes. A imitação criativa
é o novo fermento e a comunicação interactiva encarrega-se
da sua fecundidade.
Nasce aqui o potencial da exploração da Internet na criação
e gestão de comunidades de docentes. Isto é, perspectiva-se a
necessidade de estudar o conceito e a tipologia de comunidade virtual, e de
analisar três eixos fundamentais das comunidades virtuais de interesse
cognitivo: a comunicação mediada por computador, a usabilidade
dos espaços e a socialização do intervenientes [Andrade
2001].

Fig. 1 – Morfologia da Inovação
Comunidades Virtuais
A existência de comunidades virtuais não
deriva do aparecimento da INTERNET. Efectivamente a emergência de um novo
media propiciou sempre o desenvolvimento deste conceito ao possibilitar a identificação
dos sujeitos com outros fisicamente distantes, mas próximos nos ideais,
ou nas lutas travadas.
Contudo numa abordagem sintética como esta é de salientar que
o paradigma de comunidade virtual será a criação e o desenvolvimento
da própria INTERNET. Efectivamente a este propósito J.C.R. Lickider
e Robert Taylor responsáveis da ARPANET escreviam em 1968: «In
most fields they will consist of geographically separated members, sometimes
grouped in small clusters and sometimes working individually. They will be communities
not of common location, but of common interest…».
O desenvolvimento da vida moderna e urbana é um campo sociológico
que explicará as mutações das comunidades e o aparecimento
das associações, assim como a emergência das comunidades
virtuais e online mediadas por tecnologia. Contudo poderemos constatar que as
comunidades virtuais não funcionam num espaço de lugares, mas
que se desenvolvem num espaço de fluxos sem que as pessoas se tenham
ainda encontrado no mundo real, sendo que as comunidades online resultam de
uma extensão da interacção do universo orgânico para
o digital.
Caracterizadas sumariamente as comunidades virtuais será clarificador
encontrar uma tipologia para as mesmas que evidencie os eixos das necessidades
a que dão resposta. John Hagel e Arthur Armstrong na obra Net Gain identificam
quatro tipos básicos de necessidades a que as comunidades virtuais dão
resposta [Hagel e Armstrong 1997]:
· Interesse – relativo por exemplo a um hobby.
· Relacionamento – eventos normalmente traumáticos que levam
a procurar conforto e apoio na net.
· Fantasia e Imaginário – opção por ambientes
que facilitem a criação de um outro eu virtual.
· Negócio ou Transacções – aproveitamento
da rede como plataforma de ligação das empresas a clientes, fornecedores
e parceiros.
O potencial destas comunidades no contexto educativo deve ser analisada numa
perspectiva global, ou sistémica, pelo que se suscita a discussão:
devemos continuar a desenhar sites ou precisamos de redesenhar escolas?
Comunicação Mediada por Computador
A tecnologia disponível no plano das comunicações impede
a utilização de larguras de banda que permitam a utilização
da imagem ou a partilha simultânea de documentos com adequados níveis
de satisfação. Assim sendo, é importante reter os atributos
fundamentais da comunicação mediada por computador e da exploração,
em grupo, das plataformas tecnológicas [Andrade 1999]. A comunicação
é fundamentalmente assíncrona, porque não se faz em simultâneo,
aespacial porque o lugar de encontro é materializado no ecrã de
cada um, acorporal porque a falta de imagem anula o efeito social do corpo na
comunicação, anastigmático porque não há
o estigmatismo provocado pelo imagem e eventualmente anónima numa fase
de arranque [Carver 1999]. No universo virtual também é importante
ter em consideração a capacidade cognitiva e cultural dos sujeitos
como factores que permitem integrar, identificar e classificar as imagens e
as mensagens trocadas.
O espaço virtual é propício à fluidez da identidade
condicionando os níveis de responsabilidade na participação
na vida da comunidade.
Alguns deste factores, são metaforicamente tratados num histórico
e célebre cartoon publicado na New Yorker Magazine (p61) em 1993 colocando
um cão a um computador com a elucidativa legenda: «Na INTERNET
ninguém sabe que tu és um cão».
Neste contexto a criação de uma comunidade virtual envolve um
enquadramento ético nos planos da privacidade e da confidencialidade
e uma metodologia que interfere com diferentes áreas do conhecimento
e não apenas numa abordagem tecnológica e algorítmica.
A Usabilidade dos Espaços
Se no espaço orgânico a arquitectura condiciona o nosso comportamento,
no espaço virtual ela é ainda mais determinante pois nada nos
obriga a permanecer no local e a concorrência mora um clique ao lado.
A articulação harmoniosa dos elementos, economicamente sustentáveis,
deve ser subordinada aos princípios globais do design [Carvalho 2001].
Os parâmetros de usabilidade como os de J. Nielsen, ou outros, podem contribuir
para a consistência conceptual, visual e mecânica podendo ser objecto
de testes mais focados nos documentos, ou na estrutura dos sites [Collis 1999].
Neste sentido a estrutura da informação e o processo de navegação
é fundamental sendo sempre enquadrado pela opção de fundo
a definir para o ambiente: uma metáfora ou um estrutura baseada em categorias?
Facilitar a Socialização
Autores como Clifford Stool ou Paulina Borsook têm apresentado activamente
a sua visão disfórica da INTERNET [Stoll 1996]. São chamadas
de atenção a ponderar pelos promotores de uma iniciativa deste
tipo. Numa comunidade virtual de docentes como desenvolver factores de coesão
entre os sujeitos? Qual o ciclo de vida dos seus membros? Quais os níveis
de participação, os papéis e perfis desempenhados? Mas
também, como adequar a tecnologia para promover a sensação
de presença ou de lugar?
Estamos perante uma dupla perspectiva: a da gestão, e a dos membros da
comunidade. De um lado, a identificação das necessidades, a estruturação
da missão, a definição de objectivos, de políticas
de interacção, de criação de mecanismos sectoriais
de suporte e de identificação de papéis para assumir a
liderança. Do outro lado, a procura de satisfação de necessidades
corporativas, científicas ou pedagógicas.
A plataforma tecnológica e a articulação com as orientações
gerais para a gestão da comunidade devem atender a um modelo, que a Fig.
2 procura consubstanciar, e que permita [Andrade e Machado 2001]:
Uma organização fractal das problemáticas em questão
para encontrar, ou dar lugar, à manifestação dos nichos
de interesse dos seus membros. Aqui poderemos ver emergir méritos, e
lideranças circunscritas, que contribuem para a descentralização
da gestão e podem fazer desenvolver o vector da criatividade. Por outro
lado, o cuidado nas ferramentas de interacção disponíveis,
que não se devem constituir como barreira à entrada e participação
dos membros, pode constituir-se como um ambiente facilitador da inovação
de mentalidades e experiências educativas múltiplas. Esta interacção
deve ser aliada a um cuidado na definição de políticas
para a comunidade, em que os seus membros participem na sua definição
e alteração por forma a desenvolver mecanismos de agregação
e de satisfação com o projecto. Assim sendo, o vector da cooperação
altruísta, ou formatada em diferentes projectos, pode ser uma realidade.
Finalmente, um clima adequado de confiança aliado a uma estrutura de
debate, acompanhamento e acesso a informação que cubra exaustivamente
as áreas de interesse pode intensificar a participação.
As comunidades de aprendizagem produzem serviços e informação
que potencia o conhecimento. De facto, aprender é uma construção
marcadamente social, e a INTERNET um enorme potencial pelo facto de ser uma
rede de interacções com pessoas e objectos adequados a diferentes
ciclos de necessidades. Para tal, os membros destas comunidades, precisam de
actuar numa articulação harmoniosa de competências, tal
como numa orquestra segundo a convicção de Ted Kahn [Kahn 1999]:

Fig. 2 – Adequação da Plataforma à Gestão
A Força dos Laços Fracos
Há inúmeros exemplos de comunidades de sucessos
em cada uma das áreas da tipologia indicada (Hagel
e Armstrong – pág. 4).
O modelo anteriormente descrito associado a uma metodologia de criação
e desenvolvimento foi aplicado na criação da comunidade de professores
de informática. Esta iniciativa permitiu uma dupla perspectiva de análise:
a gestão e a convivência dos sujeitos na construção
de laços sociais capazes de desenhar múltiplos projectos.
De Abril de 1997 até hoje podemos contabilizar milhares de mensagens
trocadas e iniciativas complexas realizadas: acções de formação,
pareceres, artigos, participação em projectos de investigação
suporte pedagógico e científico.
Desta forma é possível conceptualizar objectivos, papéis
e tarefas de gestão relativa aos promotores da iniciativa nos diferentes
níveis: operacional, táctico e estratégico.
Referências Bibliográficas
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de Aprendizagem, do Urbanismo à Gestão, II Conferência Internacional
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Carvalho, Ana Amélia Amorim, Usability Testing of Educational Software:
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Stoll, Clifford, Silicon Snake Oil, Anchor, 1996
Tedesco, Juan Carlos, (1999), O Novo Pacto Educativo, V. N. Gaia, Fundação
Manuel Leão